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"DOR MINGO"
Carla. Linda! Dentro de seus olhos eu podia ver estrelas, passarinhos, nuvens ou até um romance, não fosse ela namorada de um gorila. Puta corno! Hora e meia levantava o traseiro para ir ao banheiro, pedir uma cerveja, acender um cigarro. Adorava desfilar seu corpo voluptuoso pela passarela daquele bar.
Os azulejos formavam uma melodia ritmada até o balcão. Ali, um sujeito alto e loiro pedia mais uma dose de qualquer coisa. Eu, indiferente passava os olhos pelo boteco, ora seguindo o traseiro da Carla (e que belo traseiro!), ora seguindo o garçom, esperando que aquela suculenta garrafa pousasse em minha mesa.
Nesse suave passear de meus olhos me deparei com uma criatura que tinha algo de peculiar. Tava lá. Encostado na parede, fumando, com cara de "eu sou o caminho, a verdade e a vida", no meio de toda aquela neblina de cigarro barato e gargalhadas de domingo. A solidão habitual. No meu canto, eu apenas degustando os resquícios de uma lingüiça com cebola. A alegria do ambiente não era contagiante. Porque seria? Além do mais, eu já estava de saco cheio do Chitãozinho e Chororó. O homem continuava lá, encostado, como se esperasse o mundo acabar em barranco. Parecia que ia dizer alguma coisa e nunca dizia, só cofiava sua barba, levemente preocupado. Indubitavelmente sua cabeça maquinava algo transcendental. Como se estivesse debruçado sobre antigos pergaminhos, o sábio profetizava.
Minha mesa estava repleta de garrafas de cerveja. Pode parecer neurose, conspiração, mas eu estava disposto a ficar ali por horas, esperando o cara reagir. Aquela imagem inerte, quase um messias contemporâneo. Cada vez mais eu acreditava que ele era o próprio Jesus. Num sutil espreguiçar era evidente a imagem do Cristo na cruz. As garrafas tinham alguma coisa a ver com isso, claro.
Uma mosca pousava na borda do copo, o Corinthians marcava um gol, a inflação subia, a manga com leite matava mais uma pessoa. Nada! O calhorda dava mais um trago, absorto nele mesmo.
Que estourasse mais uma guerra, que a ira de Deus caísse sobre nossas cabeças, ou até que... a Carla fosse embora levando consigo o rabo. Nada!
O tempo pesava sobre minhas costas. Eu esperava... Uma garrafa cai da minha mesa e se estilhaça. Ele se levanta. O Corinthians marca mais um gol, meu coração palpita, aquele frio na barriga, um arrepio me corrói do dedo mindinho do pé até o fio de cabelo comprido grudado no meu paletó. Era naquele momento, eu tinha certeza: iria acontecer um milagre.
Caminhou até a porta do bar com um olhar incógnito (eu podia jurar que o chão se transformava em mar e ele caminhava). Um tanto ébrio, olhos marejados, disse filosófico: "Puta que pariu, amanhã é segunda!".
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