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Bobeou, dançou.
Quem nunca ouviu uma conversa sobre deficientes físicos que não tivesse a palavra "coitado" no meio? Ah, mas quem os vê esquecendo as cadeiras de rodas e dançando Street Dance vigorosamente, com certeza muda de discurso para algo próximo do "como eles conseguem fazer isso?!".
Sem exageros, estamos falando do projeto "Inclusion", um dos muitos que acontecem na escola de dança Bombelêla Dance Company, pioneira nessa modalidade de inclusão social.
O idealizador, dançarino, coreógrafo, professor, personal trainer, fundador e administrador da academia (haja fôlego!), Mark Van Loo, encarou o desafio depois de vários meses de pesquisa com psicólogos, professores, coreógrafos, fisioterapeutas e outros profissionais que já estudavam o assunto. Quando reuniu conhecimento suficiente, iniciou a criação e a produção da coreografia. O elenco contava com 21 dançarinos, entre eles seis deficientes físicos.
Os dançarinos ficam orgulhosos ao falar dos resultados que levaram oito meses árduos para alcançarem. E se gabam ao lembrar que o elenco inicial se mantém praticamente inalterado. Já foram quatro coreografias que saíram pelo Brasil afora emocionando as pessoas. E as ações não param por aí.
Além do "Inclusion", existe uma dezena de outros grupos na academia. Entre eles, destacam-se o "Funkids", formado exclusivamente por menores de 12 anos; o "Masterfunk", com dançarinos da terceira idade; o "Funk With You", formado apenas por mulheres e o "Streeteen", com integrantes na fase da adolescência.
Mesmo oferecendo a tantas pessoas a oportunidade de fazerem arte, a companhia sabe que ainda há muito a se fazer. Certa vez, o pessoal do Bombelêla se apresentou numa empresa e depois deu uma aula para os funcionários. "Foi ótimo ver a alegria daquelas pessoas que não fazem isso normalmente", disse Mark em nome de todos. "Isso nos motiva e queremos voltar a fazer com uma freqüência maior", ele arrematou.
Com tanto esforço e boa vontade, Mark e o Bombelêla ganharam notoriedade na mídia e participaram juntos de mais de 19 campeonatos. Conquistaram 11 primeiros lugares e 2 vices, além de um glorioso 3º lugar em Los Angeles, EUA, no festival da Federação Internacional de Hip Hop, em 1998, sendo o único grupo estrangeiro dos oito participantes.
Mas quem pode participar do Bombelêla? "Tem que ser gente boa. Não pode beber, usar drogas e tem que querer suar a camisa. Não que eu esteja discriminando, mas é que o grupo Bombelêla tem um passado legal, e o pessoal tem um histórico bom. Não podemos regredir nisso", disse Mark. Atualmente existe a idéia de se montar um espaço numa região de classe econômica mais alta. O diretor explica que desse modo, seus companheiros poderão dar aulas para pessoas que podem pagar por elas, gerando renda para os beneficiários. A idéia é atingir a auto-sustentabilidade.
Quando já possuía certo reconhecimento, Mark Van Loo foi convidado pela maior parte dos canais de televisão aberta para apresentar seus espetáculos. Formou parcerias de trabalho com artistas como o grupo Art Popular, Sandra de Sá, Luciana Mello e até a apresentadora Eliana não ficou de fora. Agora imaginem um puta negão de quase dois metros de altura brincando de "uma minhoquinha faz ginastiquinha?". Calma aí, a área dele não é essa, bem sabemos.
Com tamanha exposição na mídia, perguntamos sobre sua fama. O professor explicou com humildade: "Meus amigos às vezes passam por mim e falam 'o Mark tá famoso' e tal, e eu digo que não mudou nada. Eu continuo fazendo as mesmas coisas que fazia há dez anos. A diferença é que hoje meu trabalho é visto por mais gente". Ele ainda fala, com certo desconforto que logo no começo já conseguiu com seus amigos as próprias conquistas, e que o trabalho para artistas só fez "deslanchar" a carreira.
Além de tudo, o cara é gente finíssima. Ao terminarmos a entrevista, ele nos ofereceu uma carona. Sabe como é: dólar em alta, tempos difíceis, vacas magras... A equipe foi obrigada a aceitar.
Ao parar num semáforo, duas meninas que distribuíam panfletos se aproximaram do carro. Para nossa surpresa, ao invés de empurrarem propaganda para dentro, elas perguntaram sorrindo: "Ei, você não é aquele dançarino da televisão?". Ele balançou a cabeça e disse não, mas entregava o jogo com um sorriso maroto. Elas apontavam e sorriam enquanto o carro seguia. O motorista tinha um brilho nos olhos.
Nós também fizemos umas perguntinhas descontraídas para conhecer melhor o Mark. Saca só:
Menisqüência - Quando você era moleque não tinha sonhos de uma criança normal, ser jogador de futebol, pagodeiro, cantar no Raul Gil?
Mark Van Loo - Pagodeiro não, mas jogador de futebol. A gente vê sempre pela televisão os jogadores e sonha em ser também. A dança não era minha atividade número um. Comecei a dançar em programas como show de calouros do Silvio Santos. Surgiu a oportunidade e eu abracei.
Menisqüência - Como você faz uma idéia virar dança?
Mark Van Loo - É complicado falar sobre isso, estou até preparando um livro sobre os processos da coreografia. A criação não sai do nada. Todos têm que vir aqui e ensaiar para ver se dá certo na hora. A música também inspira. Hoje mesmo, antes de vir para cá, estava ouvindo algumas para a próxima coreografia. Até traduzo quando são em inglês, porque algumas canções americanas, por exemplo, fazem apologia a coisas que sou contra. Não adianta nada querer falar sobre uma coisa e colocar uma música que fale totalmente o contrário do que estou fazendo.
Menisqüência - Você fazia poesias também?
Mark Van Loo - Fazia, mas era uma coisa mais pessoal. Sempre fui romântico, tinha amores platônicos. Sempre me apaixonava pelas meninas mais bonitas da escola, e mandava as poesias para elas. Mas gosto de escrever, e hoje sou eu que escrevo meus projetos. Foi muito importante o aprendizado, até na coreografia eu poetizo.
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