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Pane no sistema!

A roqueira Pitty tece opiniões e deixa sua marca em Menisqüência!

Se você nunca ouviu "Equalize", "Teto de Vidro" ou "Máscara", provavelmente estava fora desta esfera terrestre musical e, portanto, não reconheceu os nomes dos grandes sucessos de Priscilla Leone, mais conhecida como Pitty.

Em seus quase 10 anos de carreira, a roqueira conseguiu levar sua música e estilo até o status de rockstar nacional. Ao mesmo tempo em que impõe seu jeito único de baiana arretada nos palcos de todo o país, Pitty demonstra seus gostos e influências através de suas letras e composições. Em entrevista por e-mail à Menisqüência, a cantora dá detalhes a respeito de suas opiniões e preferências, tanto sobre si quanto como a respeito do universo rock n' roll que a cerca.

Você não curte rótulos. O que sente quando abre uma revista e vê - "PITTY, A ROQUEIRA BAIANA"?
Agora até já acostumei, no começo achava mais esquisito. Procurei entender os motivos e vi que a mídia tem uma necessidade natural de te rotular pra que as pessoas que não te conhecem te encaixem de alguma forma. Como uma forma de definição. Seria bom que não precisássemos de rótulos tão literais, na verdade.

Você encara o "nome" Pitty como banda ou carreira solo?
É meu nome; começou como solo porque eu não tinha banda definida, mas à medida em que as coisas foram rolando, ficamos mais e mais como uma banda. Hoje eu me sinto totalmente numa banda: dividimos as decisões do dia a dia e o processo criativo, além de nos conhecermos há muito tempo e de sermos uma família.

Que história é essa de que você levou uma mordida na perna em um show? Isso tudo é carinho?
Só se for carinho sádico, né? (risos) Era um palco baixo, não sei o que deu no moleque que ele catou minha batata e mordeu, fiquei com um puta hematoma. No instinto acabei chutando a cara dele, ele deve ter tido suas lembranças desse dia também.

Já fez algum show de porre?
Já, claro! Mas não lembro se foi bom ou ruim (risos). Não costumo. Gosto de ficar ligada no palco, desperta!

Costuma baixar música na Internet? O que acha disso?
Costumo, e acho tranqüilo. Ajuda na divulgação das bandas mais underground, ou a ter acesso a coisas que não saíram no Brasil. E também não acho que esse seja o problema na questão da pirataria, tipo, do jeito que eu faço, às vezes baixo um disco novo de uma banda e se ele realmente me interessa, eu vou lá e compro. Fiz isso com o último do Placebo.

Seu primeiro CD, "Admirável Chip Novo" (2003), faz referência ao livro do autor inglês Aldous Huxley, "Admirável mundo novo". E onde é que a literatura brasileira entra em seu trabalho? Aliás, quais são seus autores nacionais preferidos?
Entra de forma despretensiosa e natural. Nunca pensei em fazer música com referências literárias de propósito, acabou rolando porque, inevitavelmente, ler me inspira. Gosto de Clarice Lispector, muito, Gregório de Matos, entre outros.

Durante seu processo de criação, alguma vez já pensou "esta música vai ser para emplacar o CD"?
Não, nunca. Deveria? Acho que não... Quando eu faço uma música penso se gosto dela, se ela é verdade pra mim, e só.

Você acha que atravessou a linha que divide o underground do comercial? Qual a fronteira?
Talvez sejam os meios em que são divulgados, e o alcance de público que se tem. Não sei se a fronteira é exatamente "underground X comercial", porque mesmo uma banda menor "comercializa" de alguma forma seus discos e seus shows para existir, e aí isso se dá em maior ou menor escala de acordo com a demanda. Talvez fosse underground (restrito a uma cena, um meio) X popular (acessível a grande mídia e conseqüentemente a mais pessoas). Existem coisas que são populares e continuam sendo alternativas, e existem coisas que, mesmo no meio alternativo, já são mais pop. É um limite tênue.

O que pensa sobre os fãs mais ortodoxos do cenário underground que viram as costas para bandas, quando estas despontam nas paradas?
Acho burrice. Se você gosta de uma banda antes, e ela se torna mais conhecida, qual o problema? Acontece que existe ainda uma galera que se engana achando que ser underground é gostar só do que ninguém conhece. O que tocou no rádio e apareceu na TV não presta. Isso é coisa de guri querendo se auto-afirmar, quem sabe o que quer e o que gosta está pouco se importando com isso. Quem tem opinião ouve uma música e gosta da sensação que ela passa, ponto.

Pra ser bom, tem que ser alternativo? Existe equilíbrio entre o pop e o underground?
Nem a pau! Ouço milhares de demos, e o que mais se vê é banda ruim! Não sei de onde tiraram esse conceito absurdo! Tem muita banda boa no mercado alternativo, criativas e comprometidas com sua história. Mas tem muita merda também, que é a grande maioria. Porque hoje em dia é fácil gravar, então todo mundo tem mais possibilidade de montar uma banda e ter uma demo. Tem bandas "alternativas" que são muito mais pop do que bandas que estão na mídia.

O que é mais chato em estar "aberta" para a mídia?
É "nego" começar a achar que é dono de você e que você tem obrigação de dar satisfação de tudo que faz. No meu caso, sempre mantive uma "abertura" saudável, que acredito ser bom para os dois lados. Minha vida pessoal só pertence a mim, não dou bola para veículos fúteis ou de fofocas e divulgo meu trampo onde tem que ser. Dá pra fazer, é só deixar as coisas claras.

Qual a repercussão de recusar convites para shows e aparições na imprensa que vão contra as ideologias de vocês?
Imagino que seja eles não nos chamarem mais! Mas tudo bem, a gente sempre joga limpo com a imprensa, não fazemos joguinhos. Simplesmente explicamos que tal pauta ou programa não tem a ver conosco, mas que estamos abertos a outras propostas mais pertinentes.

Você sempre se declarou muito fã do Mike Patton, do Faith no More e Fantomas. Mas quando o entrevistou para a MTV, você pareceu não gostar muito do tratamento dele. Você se sentiu desrespeitada, como repórter?
Mas eu não sou repórter! Tava ali quebrando um galho pra MTV, aproveitando pra conhecer de perto um cara que eu admiro... Mas acho que ele não sabia disso. Não o julgo, eu sei como às vezes é chato responder perguntas óbvias, ou quando é antes do show e você já está concentrado, etc. Já sabia da personalidade dele nesse ponto. Mas entrei no jogo, e como não tenho nenhuma obrigação como repórter, chutei o pau da barraca quando encheu meu saco também. Seja Patton, seja quem for.

Qual o papel do artista na construção de uma nova realidade social no Brasil?
A arte em geral tem um papel transformador muito grande. Seja cinema, pintura, literatura... Me interesso por esses temas dentro das minhas limitações, e mais como cidadã mesmo. A minha contribuição se dá sem alarde, quem faz não precisa mostrar, e o que vale é o exemplo no dia-a-dia. Uma coisa que considero importante é a distribuição de renda e isso vai da consciência de cada um. Como hoje tenho mais condições do que antes, pequenos atos se tornam vitais. Como dar uma grana a mais pro taxista que eu sei que está precisando, ou comprar comida pra alguém que está na rua. Todo dia, numa boa, não como obrigação nem pra me eximir da culpa, mas como dever de cidadão que tem um pouco mais do que o outro.

O que nunca perguntaram para você em entrevistas, mas que sempre teve vontade de falar?
(risos) Acho que já me perguntaram de um todo. Mas essa entrevista em especial foi bem desafiadora e me fez pensar e isso é sempre bacana. Valeu!!!

   
 
 
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