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Felicidade e milagres
Um dia ele acordou cedo pra ir à escola, acordou sozinho, pois já estava habituado, há três anos que ele fazia o mesmo exercício: acorda, escova os dentes, um pão pra não sair vazio, leva na mão seus instrumentos, pois a renda mensal mal era suficiente pra comprar aquele tênis barato que só serve para esquentar os pés. Esse exercício, quase um ritual, era pra chegar à escola e neste momento, com todo orgulho, louvar a Deus com Aves Maria e Pais-Nossos, além de honrar a pátria com o glorioso Hino Nacional, levando sua mão ao peito para ressaltar o orgulho.
Mas nesse dia não foi tudo assim tão organizado como em todos os outros. É que hoje encontrou sua mãe chorando, as latas de mantimento vazias, assim como os bolsos. Sem comentar nada ele apenas saiu, como numa tentativa de não se deixar ser interrompido. Não teve vontade de rezar, mas rezou, por que sua mãe sempre lhe dissera que rezar era bom pra resolver problemas, por que aconteciam milagres, |
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também cantou o Hino Nacional, mais hoje não levou a mão ao peito, por que não quis.
A fome lhe fez pensar em comer o lanche da escola, mas não quis, lhe pareceu injusto. E, no mais, sempre lhe ensinaram
a ser bom e justo, como Deus.
Quando voltou para casa encontrou sua mãe abatida no tanque, pois no fogão não havia nada pra fazer. Fitou-a com os olhos como quem quer gratificar, como quem quer acabar com um olhar triste, como quem quer retirar o máximo de esperança possível de olhos tão profundos.
O dia acaba vazio, como sua barriga e da mesma forma começa novamente. Ao acordar ele olha pra sua mãe e desta vez uma lágrima, somente uma, lhe escapa
das garras de sua fé e o faz desacreditar
na pátria, no ritual, na oração, no milagre, milagre este que não virá se ele mesmo não for buscar.
Saiu de casa e antes rezou, mesmo sem |
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